Luís Eduardo Magalhães/BA: Um homicídio a cada 8 dias.

 
Em pouco menos de seis meses, Luís Eduardo Magalhães registra um índice assustador de homicídios, com 19 ocorrências em 163 dias (entre 1º de janeiro e 11 de junho, data do último). O número equivale a uma média de pouco mais de um assassinato a cada oito dias (8,57) ou, para simplificar, quase um caso por semana. Somente neste mês, entre os dias 1º e 11,  houve quatro homicídios na Cidade. De sábado passado, 9, a esta sexta-feira, 15, duas pessoas foram assassinadas em Luís Eduardo.
 
Na madrugada de sábado, 9, Regian Lima Nascimento, 26 anos, foi encontrado morto com golpes de faca no peito, pescoço e costas na rua Santana, próximo à Casas Baiana, no bairro Santa Cruz. Na segunda-feira, 11, Maicon Pereira de Oliveira, 26, morreu no Hospital do Oeste, em Barreiras, sem resistir aos seis tiros que levou na tarde de domingo, 10. Segundo testemunhas, dois homens em uma moto Honda se aproximaram do rapaz enquanto ele caminhava pela Rua do Chapéu, também no Santa Cruz, o bairro mais populoso da Cidade. Foi lá que aconteceram 13 dos 19 homicídios registrados na Cidade, ou 68,42% dos casos.

Os demais casos ocorreram no setor industrial, onde os corpos de dois jovens foram encontrados em 30 de maio. Centro, Jardim das Acácias, Mimoso I e Vereda Tropical tiveram um homicídio cada.

Os jovens entre 18 e 29 anos são as maiores vítimas dos assassinatos, com dez casos (52,63%). Na faixa etária entre 30 e 45 anos foram quatro ocorrências. Outras duas vítimas foram um menor (16 anos) e uma mu-lher, de 46 anos. A idade de outras três pessoas é desconhecida.

A maioria das mortes aconteceu por arma de fogo: foram 11 (57,9%). Sete pessoas foram mortas a golpes de faca (36,84%) e uma, a pauladas (5,26%).

Março, maio e junho são os meses com maior número de homicídios, com quatro ocorrências cada. Em janeiro e fevereiro aconteceram três homicídios. Em abril foi registrado apenas um assassinato.

Das 19 pessoas assassinadas, 18 (94,7%) são homens e apenas uma (5,3%) é do sexo feminino. O crime contra a única mulher do grupo foi o primeiro homicídio do ano, e aconteceu nas primeiras horas de 2012, durante os festejos do réveillon, na Praça Sérgio Alvim Motta, no Centro. A vítima foi a catadora de produtos recicláveis Maria do Carmo de Lima, 46 anos, morta a facadas. O assassino cometeu o crime durante os festejos de ano novo, em meio à multidão, e não foi visto por ninguém. Populares repararam apenas quando a mulher caiu ao chão, ensanguentada. Na ocasião, apenas a guarda municipal fazia a segurança do evento.

Aumento. O número de homicídios surpreende em comparação com o do mesmo período de 2011, quando aconteceram 14 assassinatos (aumento de 35,71%), segundo dados da 5ª Companhia da Polícia Militar. Nos números oficiais de assassinatos ao longo de um ano, há diferença entre os da Polícia Civil e os da Polícia Militar, uma vez que a Civil considera os crimes na área rural, em regiões de Barreiras perto da divisa com Luís Eduardo Magalhães. Segundo a PM, em todo o ano de 2010, aconteceram 17 homicídios na Cidade.  A Polícia Civil contabiliza 24. Em 2011, Luís Eduardo dobrou o número de mortes por homicídio, segundo a PM, registrando 34 casos. Já pelos dados da Polícia Civil, os casos aumentaram em 50% (passando de 24 para 36).

Para o comandante da 5ª Companhia da Polícia Militar, capitão Cristiano Gama, a forma como os crimes aconteceram em 2011 indica que eles têm ligação com acerto de contas na partilha de roubos e tráfico de drogas. “Não tivemos nenhum caso de latrocínio. A dívida por drogas ou a rixa em função de problemas antigos entre agressor e vítima ou discordância em partilha de roubos são as principais causas dos assassinatos”, disse. Segundo o capitão Gama, o tráfico de drogas é o vetor da maioria dos crimes e delitos. “As drogas estimulam o roubo, o furto e o homicídio. É um crime que provoca outros crimes”.

A facilidade de obter as drogas e ter informações sobre elas foge ao controle dos pais, segundo o psiquiatra Alexandre Rizkalla. “A família hoje é bombardeada pelo fácil acesso dos seus filhos ao mundo das drogas e do consumismo. Se levarmos à luz da psiquiatria, nos confronta com os mais variados transtornos de personalidade e conduta”, afirma.

Apesar de ter na 5ª Cia. da Polícia Militar um efetivo 40% abaixo do ideal, seja para realizar um trabalho de prevenção, seja para atendimento às ocorrências, o capitão Gama critica a demora na punição aos autores dos assassinatos. “Em um dos casos, o responsável pelo homicídio foi morto por vingança pelo crime cometido ante-riormente. Ou seja, a demora na punição ao criminoso permitiu que houvesse justiça feita com as próprias mãos”, disse.

O capitão Gama aponta dois fatores para a crescente onda de homicídios na Cidade. “O primeiro é a sensação de impunidade. O criminoso sabe que dificilmente irá ficar preso por muito tempo. O segundo é a banalização da vida. Mata-se por qualquer motivo”.

Para o psiquiatra Alexandre Rizkalla, os homicídios estão ligados à inversão de va-lores. “A questão da impunidade, do baixo nível cultural, da distribuição desigual de renda e a impunidade agravam o quadro no sentido de uma vida direcionada aos bons costumes”, afirma.

Na opinião do capitão Cristiano Gama, o quadro visto em Luís Eduardo Magalhães é um reflexo do que acontece no país. “Chegamos a um estado de coisas  em que todos têm que compreender que o Brasil atingiu um estágio insustentável de violência. E Luís Eduardo não foge à regra”.

Ações. O capitão Gama cita o exemplo de Nova York (EUA) para combater à violência. “A cidade americana era umas das mais violentas do mundo e, em pouco tempo, graças a um projeto de tolerância zero, com operações que resultavam na prisão desde os pequenos até os maiores criminosos, foi possível reduzir os índices de violência”.

O combate aos homicídios, de acordo com o capitão Gama, passa por medidas preventivas às drogas e por  leis que não favoreçam os criminosos. “A polícia cumpre seu papel, que é o de prender e controlar. O Estado precisa também fazer a sua parte, que é a de punir”.

A omissão do Estado contribui para os crescentes índices de violência, segundo o psiquiatra Alexandre Rizkalla. “O empenho governamental com políticas de saúde pública, preventiva e educacional resultaria em um avanço à melhoria dos jovens e adultos. O que falta é comprometimento e bom senso. A prevenção está na educação”, diz.

O comandante da 5ª Companhia da Polícia Militar lembra que em 2011, com a transferência de um menor responsável por arrombamentos na Cidade, diminuíram  os índices deste tipo de crime. “Este é um exemplo de que a punição resolve. Os arrombamentos diminuíram consideravelmente de lá para cá”, afirma. O capitão Gama refere-se à sentença do juiz titular da Comarca de Luís Eduardo Magalhães, Claudemir da Silva Pereira, em julho de 2011, que condenou o menor J. S., de 17 anos, a cumprir pena especial por um ano na Casa de Atendimento ao Menor (CAM), em Salvador.

Segundo o capitão Gama, pelo menos 80% dos homicídios estão elucidados. Ele confirma o número por trabalhar em conjunto com a Delegacia de Polícia de Luís Eduardo Magalhães. No entanto, para não atrapalhar as investigações, o nome dos autores dos crimes não são anunciados pelas polícias Civil e Militar. Até o momento, dois criminosos estão presos na Delegacia de Luís Eduardo Magalhães e um dos assassinos morreu – também por assassinato – quatro meses após cometer o crime.

Segundo o comandante da 5ª Cia, o fato de as investigações terem sido concluídos não implica que os acusados estejam presos. “Foram apuradas todas as evidências de cada crime e chegou-se à conclusão de quem seriam os autores. É apenas uma parte dos trabalhos”, disse.

Os homicídios

Janeiro
 
l Na madrugada do dia 1º, a catadora de produtos recicláveis Maria do Carmo de Lima, 46 anos, é morta por um desconhecido a facadas (uma nas costas e outra em um dos pés) na praça da Matriz,no Centro.

l  No dia 2, Uilton Jesus da Costa, 19 anos, é encontrado morto com sinais de perfuração à bala no peito, pescoço e nuca, na avenida Ayrton Senna, no Santa Cruz.

l No dia 21, Jairlan Antonio Silva de Souza, de 18 anos, é encontrado morto por populares com três tiros – na coxa direita, abdômen e testa – na rua Itabuna, no Santa Cruz. O autor do homicídio, Rodrigo Alves dos Santos, o “Rudia”, seria atingido a tiros no dia 16 de março. Ele morreu no Hospital do Oeste, em Barreiras, em 18 de maio.

Fevereiro
 
l No dia 4, Jefferson Miranda Rocha, 20 anos, foi encontrado por moradores da região com perfurações de arma branca no olho esquerdo e nas costas, na rua Ipê, no Jardim das Acácias.

l No dia 6, Leandro Pereira Alves, 27 anos, é encontrado morto por populares na rua Ibitiba, no Santa Cruz. Ele foi morto a pauladas.

l No dia 9, Cícero Bruno da Silva, 16, foi encontrado por moradores da região com pelo menos 15 perfurações  nas costas, pernas e tórax, na rua Santana, no Santa Cruz.

l No dia 15, Samuel Souza de Andrade, 31 anos, foi morto com um tiro nas costas em um bar na esquina das ruas Irecê com América Dourada, no Santa Cruz. Segundo frequentadores do bar, um homem atirou quatro vezes, mas apenas um dos disparos acertou Samuel de Andrade.

Março
 
l Na madrugada do dia 12, Almeida Gonçalves de Souza, 34 anos, foi morto com um tiro no pescoço por uma arma calibre 12, na rua Enedino Alves da Paixão, no Santa Cruz. O autor do crime, o mototaxista Carlito Antonio Carneiro, 55 anos, foi identificado e preso.

Conclusão da página 18 horas mais tarde por policiais civis. Ele confessou o assassinato e disse que o crime teve motivação passional, por sua esposa manter um relacionamento extraconjugal com Almeida de Souza.

l No dia 20, o ajudante de pedreiro Jarbas de Souza Santos morreu esfaqueado na Avenida Ayrton Senna, próximo à Feira Municipal, no  Santa Cruz.

l No dia 23, Ailton da Rocha Almeida, o Guga, foi assassinado com oito tiros em frente a um bar, na rua Rio Grande do Norte, no Mimoso I. Dois homens em uma moto CG 150 a encostaram próxima do meio-fio e, em seguida, dispararam várias tiros contra Ailton Almeida. Ele havia sofrido tentativa de homicídio cinco dias antes.

Abril
 
l Na sexta-feira, 20, Murilo da Rocha Hermes foi assassinado com golpes de faca, no Bar da Edna, na rua América Dourada, no Santa Cruz. Dois homens chegaram em uma moto e o carona foi em direção a Murilo, que estava sentado a uma das mesas, e desferiu-lhe várias facadas. No dia seguinte, o auxiliar de serviços gerais Reginaldo José Vilença, 21 anos, foi preso e confessou a autoria do crime. Ele alegou que horas antes de assassinar Murilo Hermes os dois haviam discutido.

Maio
 
l No domingo, 13, o ajudante de pedreiro Rodrigo Alves dos Santos, de 18 anos, morreu no Hospital do Oeste, em Barreiras, por não resistir ao ferimento do tiro que levou em 16 de março, em Luís Eduardo Magalhães.

l Na quarta-feira, 23, o mototaxista Lourival Alves Grinaldo, 30 anos, foi morto com três tiros (um no pescoço e dois na cabeça), em frente ao posto de saúde, no Vereda Tropical. O autor dos disparos foi o carona da moto que teria feito uma emboscada, passando-se por um passageiro.

l No final da tarde de quarta-feira, 30, foram encontrados os corpos de Ramon Oliveira Pereira dos Santos, 18 anos, e de Robério Santana do Nascimento, 19, na margem direita da BR 242, no sentido Luís Eduardo Magalhães-Taguatinga (TO).

Junho
 
l No domingo, 3, Raimundo Pereira dos Santos, 34 anos, foi assassinado com um tiro nas costas na rua Alagoinhas, no Santa Cruz. Ele foi atingido por um homem em uma bicicleta e, após ser alvejado, entrou em um bar para pedir socorro, mas não resistiu ao ferimento.

l Na terça-feira, 5, Vinícius da Silva, 22 anos, foi assassinado com dois tiros (um na cabeça e outro nas costas) na rua Central, próximo à Panificadora da Baiana, no Santa Cruz. Apesar da movimentação no local, ninguém passou informações do crime aos policiais.

l No sábado, 9, Regian Lima Nascimento, 26 anos, foi encontrado morto por populares com três golpes de faca (no peito, no pescoço e nas costas) na rua Santana, próximo a Casas Baiana, no Santa Cruz.

l Na segunda-feira, 11, o Hospital do Oeste confirmou a morte de Maicon Pereira de Oliveira, 26 anos. Ele foi atingido por seis tiros na tarde de domingo, 10, no Santa Cruz. Segundo relato de testemunhas, dois homens em uma moto Honda se aproximaram do rapaz, enquanto ele caminhava pela rua Morro do Chapéu, e o carona efetuou os disparos. - Luciano Demetrius/Oeste Comunicação.