Mateus Solano fala sobre Rubião, vilão de 'Liberdade, Liberdade'

Em seu segundo vilão em novelas, o ator Mateus Solano, 35 anos, vai para um caminho totalmente diferente do malicioso Félix, de Amor à Vida (2013). Na pele do poderoso intendente Rubião, em Liberdade, Liberdade, ele exala uma maldade sem nenhum arrependimento. “Ele é muito diferente de mim e por isso é um grande desafio”, afirma
Mateus Solano, em entrevista por e-mail.
Na conversa, ele também fala sobre a importância de se pensar questões atuais a partir do que o nosso passado nos ensina, na sua complexa preparação para o personagem - que incluiu aulas de esgrima e tiro - e na fonte de inspiração que buscou para Rubião e que inclui até o Conde Drácula.

Rubião tem uma química forte com a idealista Joaquina/Rosa (Andreia Horta), apesar das diferenças. Você acha que, quando duas pessoas são muito diferentes, a paixão consegue passar por cima da ideologia?  
Acho que o Rubião é um caçador. Ele é um cara que vê na Joaquina uma presa difícil e por isso desafiadora. A paixão dele está misturada com o amor que ele tem pelo poder, pela ambição, é mais forte do que ele. Já vimos que ele é oportunista, violento, passa por cima de tudo para ter o que quer. Joaquina se enquadra em mais uma dessas coisas que ele quer e mexe com ele. Como a inteligência emocional dele é nula, aquilo o confunde e o deixa mais violento, mais capaz de tudo para conquistá-la. Mistura sim alguma parte que podemos dizer que é “boa” do Rubião, uma parte que ele realmente se apaixona por uma mulher, mas essa parte admirável e humana dele, na verdade, é misturada com uma série de confusões e maldades que estão incruadas na forma dele de ser.

Que lições tirar do relacionamento conturbado dos dois e como aproveitá-las nas atuais reflexões sobre mulheres?
Uma relação é feita de dois e acho que Rubião em nenhum momento está cogitando isso, ainda mais nessa sociedade em que o homem é ainda mais opressor e a mulher é ainda mais oprimida. Dentro dessa opressão, acho que não existe espaço para uma relação saudável. Rubião é só o Rubião, não tem lugar pra relação nenhuma, de nenhum tipo com ele.  
Liberdade, Liberdade chama a atenção para discussões importantes para a história do nosso país. Quais você destacaria?Destaco a crueza da época, a falta de higiene e de saneamento básico, coisas que hoje a gente não viveria sem. E num contexto totalmente inusitado: Ouro Preto, no Brasil desse período - normalmente as tramas se passam em São Paulo ou Rio. Como disse o Peninha, historiador que conversou conosco durante a preparação, “a história é feita de sangue, suor e sêmen”. Ela é crua, essa realidade do período, essa crueza entremeia a trama toda.

Qual é a importância de usar a arte para discutir temas históricos, polêmicos e tão necessários para nossa cultura e identidade?  
O que as pessoas mais falam é como estamos vendo questões que continuam com a gente há 200 anos e fazendo esse paralelo. Acho que esse é o grande triunfo do trabalho que a gente faz, ultrapassar o entretenimento e trazer alguma discussão. Acho que o Mario (Teixeira, autor) é tão estudioso e culto, fala com tanta propriedade dessa época, que é uma novela que, sem dúvida, pode ser mostrada e usada pra mostrar como era a época e questões históricas. Mostrar Dom João no Rio, qual era o poder de um interventor, como era a derrama, a entrega dos impostos, vamos ver ainda a história da Carlota Joaquina que realmente tentou usurpar o poder algumas vezes. É muito bonito como ele aproveita o momento histórico para criar as tramas e traz não só credibilidade como informação para o público.

Como foi o processo de composição de Rubião, um vilão bem diferente do marcante Félix, de Amor à Vida? De onde veio a inspiração para a vilania dele?
Foram muitas, em livros que eu li - não só sobre a época, li também O Príncipe, do Maquiavel. Mas minha maior referência formal foi o Drácula. Eu fico muito feliz quando consigo ver essa referência ali no trabalho e calhou do figurino ter muito do Drácula, essa coisa soturna. Eu sinto e já falei isso para os meus colegas que estou crescendo como ator graças ao Rubião, em cena com os colegas e quando estudo em casa. É um personagem que me desafia porque ele realmente é o oposto de mim. Então colocar a interpretação atrás dos olhos foi e tem sido meu grande desafio.

Com quais características de Rubião você se identifica e quais delas não te representam de jeito nenhum? Por quê?
Os propósitos dele, os objetivos, são tão diferentes dos meus, que mesmo que alguma atitude dele possa se assemelhar a minha, os propósitos são tão errados que não posso dizer que me pareço. Ele é muito diferente de mim e por isso é um grande desafio.

Para viver o personagem, você precisou aprender esgrima, equitação, a atirar de verdade...Como foi passar por essas experiências?
Isso é uma das grandes delícias de ser ator. Graças à Globo e suas histórias incríveis, eu fui a Paris, ao Japão, a Ilhéus, a Machu Pichu. E lidar com todo o universo desses personagens, no caso um personagem de 200 anos atrás, que lidava com espadas, tiros, é um barato! A gente se coloca no universo, aprende coisas novas. É um tempo precioso e fundamental.

Quando se refere ao seu trabalho, você rejeita o rótulo de “bom moço”. Por quê? O que seria mais adequado para defini-lo?
 Ser ator é ser plural. Sou ator pra ser plural, pra ser multiformático e me encaixar em todos os lugares. Eu quero todas as cores.[Ibahia]

Mateus Solano fala sobre Rubião, vilão de 'Liberdade, Liberdade' Mateus Solano fala sobre Rubião, vilão de 'Liberdade, Liberdade' Reviewed by CM on segunda-feira, julho 11, 2016 Rating: 5