Com só uma quadra no país, Camarões tem princesa na seleção de vôlei

Camarões tem apenas uma quadra poliesportiva para a prática do vôlei no país. A receita da federação não paga o salário de uma atleta de ponta do Brasil. A equipe que se classificou para os Jogos do Rio é semi-amadora e é a com o pior ranking (28º) entre os 12 países da Olimpíada.
Camarões, porém, tem uma princesa no time.

Abdoulkarim Fawziya, 27 anos, é a 18ª filha de Abdoulkarim Abdourahman, rei dos Peuls (ou os fulas, se traduzido para o português). 

A jogadora nascida em Garoua, capital do norte do país que tem 18 milhões de habitantes, descobriu o vôlei ainda no colégio e, desde 2015, joga na equipe profissional de Chamalieres, na França. 

Mas, se ela quisesse, não precisaria fazer esforço algum para viver.
"Em Camarões há uma centena de tribos, e meu pai é rei de uma delas. Lá as pessoas fazem tudo por mim, se eu quisesse, não precisaria fazer nada", afirma Fawziya à Folha

A tribo da qual o pai dela é rei se espalha por diversos países africanos. Segundo a ponteira de 1,80 m, na vila onde faz parte da família real há três milhões de habitantes sob o comando de seu pai, que tem 19 filhos, de diferentes mulheres —somente da mãe dela são nove. 

Fawziya jogou o Mundial de 2014, na Itália, sua primeira grande competição. E está feliz com a estreia olímpica contra o Brasil, neste sábado, às 15h, no Maracanãzinho. "Os Jogos Olímpicos são muito maiores que o Mundial, é um torneio de primeira classe, estou animada", afirma, em francês, a atleta que já fez 17 partidas internacionais com a seleção. 

CARÊNCIA
Ter uma princesa na equipe não é sinal de riqueza no vôlei. Ao menos em Camarões, a carência é o que caracteriza a modalidade no país.
Segundo o secretário-geral da federação camaronesa de vôlei, Charles Kamdoum, a receita anual da entidade não chega a US$ 100 mil (cerca de R$ 320 mil). Sendo 90% do dinheiro vindo de patrocinadores e 10% do governo.
Uma jogadora de ponta da seleção brasileira ganha cerca de R$ 1 milhão ao ano.
A receita da CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) em 2015, por exemplo, foi de pouco mais de R$ 110 milhões. Somente nas seleções, o investimento do ciclo chegou a R$ 24 milhões.
Para a campanha olímpica, Camarões conseguiu apoio do governo. Passou os últimos dois meses treinando no Brasil com o investimento de US$ 900 mil (cerca de R$ 2,8 milhões).
"Temos um projeto de longo prazo para incrementar o número de praticantes de vôlei no país. Já fomos para o Mundial de 2014, agora estamos nos Jogos Olímpicos e queremos crescer ainda mais, degrau a degrau", afirma o técnico Jean Rene Akono.
Um dos grandes problemas é que o país todo tem apenas um ginásio capaz de receber treinos e competições profissionais de vôlei, na capital Yaoundé. E é preciso dividi-lo com outras modalidades.
"A formação é a grande dificuldade. Não temos local para treinar. As jogadoras param de jogar quando tem 14, 15 anos", explica o treinador.
Das 12 atletas que estão no Rio, seis atuam na França. Uma delas é a capitã Crescence Moma, que atua com a princesa no Chamalieres e está empolgada para enfrentar o Brasil neste sábado. 

"Não sei quantos pontos vamos fazer, só quero atacar. Se puder vencer, vamos tentar vencer. Faremos o que pudermos fazer", afirma Moma.
"Muitos times sonham em vencer o Brasil, mas sabemos que é muito difícil. Para nós, é impossível, mas temos que jogar e fazer o show para os espectadores", completa o treinador camaronês. 

Um dos poucos investidores do vôlei em Camarões é, curiosamente, um ídolo do futebol: o festivo ex-atacante Roger Milla, 64. 

Um dos destaques da Copa do 1990, na Itália, Milla tem um time de handebol há 25 anos no país e, há dois, criou uma equipe de vôlei também.
O rei do futebol camaronês não confirmou presença na Olimpíada, mas a monarquia enviou uma princesa para representar o país no Rio.

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