Domingos Montagner: do boteco preferido ao mau humor de segunda de manhã, amigos contam histórias


Quase todo domingo era sempre igual. Nesse rotineiro dia de descanso universal, Domingos Montagner curtia sua folga em família. Com a mulher, Luciana Lima, os três filhos e quem mais chegasse. Porque Domingos, segundo os amigos, os ex-alunos, os figurantes que esbarraram tantas vezes com ele, os garçons, os fãs, o povo do sertão nordestino que o
conhecia há seis meses... Todos falam de um homem expansivo, acolhedor, de riso fácil, piadista e gente como a gente.
Talvez por isso seja tão difícil acreditar que Domingos não vá mais chegar ao Pilequinho, bar do Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo, onde morou quase uma vida, para pedir seu drinque predileto. “Quando a mãe dele era viva, antes do almoço, ele passava aqui e bebia sua única dose. De conhaque e Cinzano com duas pedrinhas de gelo. E ia chegando gente, e ele ia falando do Corinthians, rindo, posando para fotos”, conta Ivan Lima, barman do boteco predileto do ator: “Quando ele fez ‘Salve Jorge’, todo mundo queria o drinque do Ziah. Pedi ao Domingos para batizar a bebida com seu nome. Ele autorizou. Na época, esqueci. Agora vou homenageá-lo”.

Era em torno de uma dose de cachaça Seleta que Domingos também proseava e descansava das exaustivas gravações no sertão. “Ele chegava da gravação por volta das 22h e pedia sua dose antes do jantar. Ficava até umas 23h30 batendo papo com a gente”, recorda Edinaldo Dantas, que foi garçom no hotel em que o ator se hospedava com a equipe de “Velho Chico”: “Domingos fazia questão de perguntar como tinha sido meu dia”.
Palhaço de formação, Domingos também provocava o sorriso de quem convivia com ele. “Era um cabra engraçado. Ficava contando uns causos, fazia piada. Não me lembro de ter visto o Domingos triste ou de cara amarrada. E era tão aberto, deixava as pessoas se aproximarem. Era um homem diferente, simples e humilde”, recorda Felipe Laranjeiras, gerente da Cachaçaria Altemar Dutra, no Centro Histórico de Piranhas, em Alagoas.
O barqueiro Elvis Cadore, que foi contratado pela produção da novela para transportar os atores, esteve com Domingos todas as vezes em que ele foi gravar no Nordeste. Não foi diferente na fatídica quinta-feira em que o ator foi levado pelas águas do São Francisco: “Estivemos juntos de manhã, brincamos, fiz várias fotos com ele para guardar de lembrança já que a novela estava acabando. Ele confiou muito no rio. Gostava de estar nele, se sentia como um de nós”.
Por parecer tão próximo, Domingos despertou paixões. E não estamos falando dessa carnal, entre homem e mulher. Havia quem o chamasse de anjo. Carola Domingos, por motivos óbvios, tomou emprestado o primeiro nome de seu ídolo. “Quem teve o privilégio de conhecê-lo e conviver com ele sabe e compreende que Domingos só poderia ser um anjo, porque era perfeito para ser humano”, emociona-se Carola. 

Foi esta face generosa que Celso Reek conheceu ainda na infância. Por conta das aulas de educação física que Domingão, apelido dado pelos alunos, dava na Escola Pacaembu, o garoto se apaixonou pelo teatro, pelo circo e pela arte: “Nos reencontramos anos mais tarde nos picadeiros e palcos, e a identificação foi imediata. Não precisei me apresentar. Ele me reconheceu. Só via o Domingos de mau humor quando era segunda-feira às 7h. De resto, era o cara mais gente boa que conheci. Falar dele no passado sempre vai ser estranho”.


Domingos Montagner: do boteco preferido ao mau humor de segunda de manhã, amigos contam histórias Domingos Montagner: do boteco preferido ao mau humor de segunda de manhã, amigos contam histórias Reviewed by CM on terça-feira, setembro 20, 2016 Rating: 5