Cientistas encontram nos olhos de bebês uma chance para tratar autismo

Um novo método promete ajudar a diagnosticar o autismo em bebês . Embora não exista cura para o distúrbio, o diagnóstico precoce permite aliviar sintomas da condição com terapias.
O método foi apresentado pelas pesquisadoras americanas Cheryl Klaiman e Jennifer Stapel-Wax, ambas da Faculdade de Medicina da Universidade de Emory, em Atlanta (EUA). Elas vieram ao Rio de Janeiro para participar do I Congresso Internacional sobre os Transtornos do Espectro do Autismo (TEA), realizado pela Associação Caminho Azul.

Klaiman e Stapel-Wax coordenam estudos para reduzir ao máximo o tempo necessário para fazer um diagnóstico de autismo . O método desenvolvido no laboratório das pesquisadoras envolve o rastreamento ocular, uma tecnologia que promete revolucionar o diagnóstico, caso sua eficiência seja comprovada por mais estudos.

Interpretar corretamente o que dizem os olhos de uma criança abre uma perspectiva promissora porque um dos principais indícios dos transtornos associados ao autismo é incapacidade da criança para encarar um interlocutor nos olhos durante uma conversa. O rastreamento ocular pode ser capaz de identificar essa dificuldade em bebês de até seis meses de idade, ou menos.

Sinais aos dois meses

Um estudo de 2013 já havia revelado evidências de que sintomas da doença podem ser observados até em bebês de dois meses.

— Em nossos laboratórios, estamos trabalhando para identificar as principais diferenças entre os bebês que desenvolvem ou não o TEA — explica Stapel-Wax, que associa o método com outras técnicas, como a ressonância magnética funcional. — É provável que esse método ajude a refinar o processo de identificação precoce em uma escala mais ampla ao longo do tempo.

Desde 1993, quando os TEA foram adicionados à Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS), cientistas e médicos têm mais dúvidas do que certezas sobre o assunto.

Até hoje, ninguém consegue explicar com segurança o que realmente causa o problema, e não existe uma cura conhecida para a enfermidade. No entanto, há um ponto em que doutores e pesquisadores são unânimes: a rapidez no diagnóstico é fundamental para um tratamento bem-sucedido.

Atualmente, menos de um quinto das crianças americanas portadoras do TEA são diagnosticadas antes dos dois anos. Quanto antes o tratamento for iniciado, maiores são as chances de atenuar o desenvolvimento dos problemas relacionados à enfermidade.

— O cérebro está se desenvolvendo tão rapidamente nos primeiros 18 meses de vida que devemos aproveitar esse potencial. A detecção e a intervenção precoces fazem toda a diferença em como o autismo se desdobra. — explica Stapel-Wax.

Milhões de afetados

Segundo ela, as evidências mostram ser possível atenuar os sintomas mais graves frequentemente associados ao autismo , como atrasos na linguagem, déficits de habilidades cognitivas e o surgimento de comportamentos repetitivos, que interrompem drasticamente a vida diária.

Não existem estatísticas precisas, mas a ONU estima que cerca de 1% da população mundial tenha autismo. No Brasil, a OMS calcula que há 2 milhões de pessoas com algum grau de TEA. No entanto, metade desse contingente nem sequer foi diagnosticada.

A maioria dos médicos se sente mais confortável em fazer o diagnóstico quando a criança tem 18 meses. Mas pesquisas do Marcus Autism Center e da Universidade de Emory, referência na condução desse tipo de estudo nos EUA, sugerem que bebês com risco de TEA muitas vezes apresentam atrasos de desenvolvimento muito mais cedo.

Sem tempo a perder

As cientistas americanas argumentam que esses atrasos podem ser tratados, mesmo sem confirmação de diagnóstico. Em geral, as crianças que apresentam atrasos, mesmo sem diagnóstico de autismo , se beneficiam da intervenção precoce.

— Se os pais desconfiarem de problemas, devem procurar ajuda. Bebês de 15 a 18 meses já mostram sinais claros, mas temos visto crianças de 11 meses com sintomas significativos o suficente para o diagnóstico — diz Klaiman.

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