Mais de 70 pessoas que moram em Feira de Santana, cidade a 100 quilômetro de Salvador, convivem com a falta de medicamentos para hanseníase desde outubro do ano passado. A situação traz preocupação já que os remédios são importante para a eficácia completa do tratamento.

Segundo o secretário de saúde de Feira de Santana, Edval Gomes, o nome do medicamento que está em falta é o PQT MB adulto. Dos 112 pacientes que fazem o tratamento contra a hanseníase, no Centro de Saúde Especializado (CSE), 84 aguardam a chegada desse remédio.

De acordo com Edval Gomes, o remédio é produzido em Israel, e, por causa da pandemia, teve problemas na fabricação e importação.

“Atualmente nós temos um quantitativo de 84 pessoas que fazem um tratamento contínuo com a poliquimioterapia multibacilar do adulto, 72 desses indíviduos tiveram que fazer a suspensão provisória desde outubro e 12 pessoas novas estão aguardando a medicação para iniciar a seguir o seu tratamento”, contou o secretário.

“A gente ainda não tem uma previsão da vinda”, revelou.

Outros dois remédios estão disponíveis no município: predinisona, de 5 e de 20 mg e o PQT MB infantil, mas sem o PQT MB adulto, o tratamento não consegue ter eficácia completa.

Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde da Bahia (Sesab), órgão que recebe do Ministério da Saúde e distribui os medicamentos de tratamento, disse que hoje tem três medicamentos para hanseníase em falta. São eles: clofamizina, dapsona e rifampicina.

A Sesab também informou que a última entrega do Ministério da Saúde foi em setembro do ano passado e que enviou ofício cobrando todas as pendências de entrega.

Já o Ministério da Saúde afirmou que iniciou a distribuição de mais de 50 mil cartelas de PQT aos estados, em janeiro de 2021, regularizando o abastecimento e que vem tratando sobre a possibilidade da produção de medicamentos para hanseníase no país.

O Ministério de Saúde também revelou que aguarda a liberação sanitária para autorização de embarque de nova carga de medicamentos.

A crise no tratamento da hanseníase no Brasil
Levantamento do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) aponta que municípios de pelo menos 18 estados do país estão sem os remédios usados para tratar a hanseníase. A entidade reuniu mais de 100 relatos em janeiro de pacientes que estão desde o 2º semestre de 2020 sem tratamento.

Em agosto, tanto o Morhan quanto a Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) realizaram audiência com o Ministério Público Federal (MPF) para relatar a crise.

As primeiras reclamações recebidas pelo Movimento no ano passado, explica Custodio, foram de médicos e profissionais da saúde, desesperados ao ver que as cartelas dos remédios estavam acabando.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia, Claudio Salgado, a situação se tornou crítica em agosto, quando acabaram todos os estoques de Pernambuco, de São Paulo e do Pará. O dermatologista atua no estado paraense e conta que, naquele mês, que pelo menos 20 pacientes foram diagnosticados com a doença e enviados para a casa sem o tratamento.

Em novembro, o Ministério da Saúde enviou um documento em reposta à ONU afirmando que tinha pedido à OMS doses adicionais do PQT para 2020, e logo depois foi informado que a produção do remédio passava por problemas e que a demanda adicional seria inviável.

No mesmo documento, o Brasil afirmou que recebeu um carregamento da OMS em 3 de setembro e encaminhou aos estados. E que “os problemas decorrentes da falta de PQT no SUS afetaram apenas a oferta de tratamento multibacilar de adultos”.

A hanseníase tem cura se tratada

A hanseníase é uma doença contagiosa que atinge os nervos e pode causar sequelas, como a perda da sensibilidade da pele e dos movimentos. Nos casos mais graves, pode levar à amputação dos membros.

Além de promover a cura, o tratamento adequado da hanseníase impede a transmissão de pessoa a pessoa da bactéria causadora da infecção.

Diante da crise de abastecimento e interrupção do tratamento, a ONU estima que o Brasil e demais países que passam pelo desabastecimento deverão ter grave retrocesso no controle e transmissão da hanseníase e na prevenção de deficiências desses pacientes.

A redução de diagnósticos é outro problema que tem sido observada no Brasil durante a pandemia. De acordo com o Morhan, nos últimos 5 anos, o país registrou em média 15 mil casos de hanseníase no primeiro semestre de cada ano. Em 2020, o Brasil teve apenas 6 mil notificações nesse período.

(G1)