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    A política costuma ser pedagógica: nela, o silêncio e a ausência ocupam tanto espaço quanto o discurso mais entusiasmado. Em São Desidério, durante o recente evento em prol da campanha de Danilo Henrique (MDB), a cadeira vazia do deputado estadual Antônio Henrique Júnior (PV) falou volumes.

    O que se ventila nos bastidores não é apenas um desencontro de agendas, mas o reflexo de um acordo que, ao tentar pavimentar novos caminhos para o herdeiro, parece colocar em xeque a manutenção do quarto mandato daquele que já foi o “invencível” Toinho.

    A costura política liderada por Danilo Henrique com o prefeito Tony Linhares resultou em uma divisão de território que, na prática, transfere um capital político considerável para Fernanda Sá Teles. O cenário ganha contornos de urgência com o peso de Márcia Sá Teles, irmã de Fernanda e superintendente da Codevasf em Bom Jesus da Lapa.

    Para Toinho Júnior, o custo dessa articulação coordenada por Zé Carlos em São Desidério pode ser a perda de mais de 2.000 votos – um luxo ao qual o deputado não pode mais se dar, especialmente ao considerar sua “claustrofobia eleitoral” dentro da federação PT, PCdoB e PV.

    Estar na Federação “Brasil da Esperança” hoje é o equivalente a entrar em uma arena de leões com um ferimento aberto. Trata-se de um dos agrupamentos mais sanguinários e disputados da Bahia, onde o PT costuma devorar as sobras das siglas menores.

    De 74 mil a 49 mil O gráfico de um mandato que encolhe enquanto as ambições da família crescem

    Para Toinho, que assistiu sua votação derreter de 74.909 em 2014 para os perigosos 49.882 em 2022, cada voto loteado em São Desidério é um passo em direção ao abatedouro político. Enquanto os gigantes do PT consolidam suas bases, o deputado do PV vê seu oxigênio ser reduzido por manobras caseiras.

    Poderia se dizer que a política é a arte de somar, mas em São Desidério, a operação parece ser de pura subtração para o patriarca. A analogia é quase bancária: para que o crédito político do filho cresça e garanta alianças com o clã Sá Teles, o “investimento” parece sair diretamente da reserva de sobrevivência do pai.

    É um jogo de xadrez onde o sacrifício de uma peça veterana é aceito como o preço para promover uma nova figura, ignorando que, sem o mandato de Toinho, o grupo perde sua principal engrenagem institucional.

    Até que ponto essa sucessão antecipada é sustentável? O tempo das urnas dirá se Toinho Júnior aceitará passivamente o papel de escada para o nécio projeto do filho – que parece ignorar a aritmética básica da sobrevivência dentro de uma federação canibal – ou se o encolhimento de seus números foi uma concessão planejada para um fim de ciclo. Por enquanto, a imagem que fica de São Desidério é a de um território sendo repartido enquanto o titular do mandato assiste, de longe e enfraquecido, à fragmentação de um legado que já foi sinônimo de hegemonia absoluta no Oeste.

    Caso de Política | Luís Carlos Nunes

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