'Tenho orgulho de ter sido atacado por um tubarão-branco', diz empresário carioca que levou 250 pontos

Foram poucos segundos e 250 pontos. Suturas que reconstruíram a panturilha esquerda do empresário e windsurfista João Pedro Portinari Leão são a memória viva do ataque de tubarão-branco sofrido quando velejava em Búzios, em abril de 1997. A morte tentou arrastá-lo para o fundo do mar, mas o carioca de 45 anos decidiu que não era a hora de morrer. Enquanto lutava para chegar à areia, João Pedro sentiu o estranho orgulho de ter sido mordido pelo temido predador. Delírio? Nada. As cicatrizes se tornaram uma espécie de troféu, como empresário conta em "A Isca", autobiografia que ele acaba de lançar. Abaixo, uma conversa exclusiva de João Pedro, sobrinho-neto do mestre das artes plásticas Cândido Portinari, com o blog PAGE NOT FOUND:

Como foi o ataque?

Era um dia perfeito para velejar: sol e muito vento. Tinha uma prancha nova. Resolvi dar um tiro para o meio do mar e depois ficar na beiradinha. Estava com um amigo, mas ele voltou no meio do caminho. Eu continuei até uma área bem longe da costa e onde windsurfistas não velejam. Não pensava em tubarão naquele momento. Quando fiz um movimento para retornar, meu corpo entrou parcialmente na água. Foi quando senti uma pancada na panturillha esquerda. A pancada era, na verdade, a mordida. Eu fui arrastado para dentro do mar.

Você viu o que o tinha atacado?

De relance. Eu pensei: é um tubarão, vou morrer. Não tive reação, fiquei muito surpreso. Acreditava piamente que nunca aconteceria comigo. Na verdade, não tive tempo de reagir. De repente, senti que o tubarão já não estava mais me puxando para o fundo. O fato de ele ter batido com o rabo na vela o assustou. Tubarões não gostam de ser tocados. Voltei à tona, a vela encheu de ar, consegui me equilibrar e voltei.

Temeu que o tubarão voltasse e 'completasse o serviço'?

Meus músculos estavam pendurados, eu conseguia ver os ossos. Não entrei em desespero, pois achava que aquela perna não fosse minha. Foi uma espécie de negação. Eu velejava deixando um rastro de sangue, mas não pensei que o tubarão estivesse me seguindo. Era tanto sangue que pensei: já era, vou morrer aqui sozinho, e vai ser terrível. Comecei a pensar que talvez fosse um sonho e que, para sobreviver, eu tinha que acordar. Foi quando a ficha caiu. Eu disse para mim mesmo: não posso morrer aqui. Não vou morrer aqui.

No que você pensava?

Em nada. Só queria voltar. Eu tinha que conseguir velejar para sobreviver. Ao mesmo tempo, eu sentia orgulho de ter sido atacado por um tubarão e estar lutando para sobreviver. Quando cheguei à areia, não consegui ficar de pé. Fui me arrastando até um casal que não tinha me visto. Ele me colocaram num carro e me levaram para a casa de um amigo, que tinha avião. Só que ele acabou me levando para um hospital de Búzios mesmo. Não havia condições de remoção. Fui operado ali mesmo. O médico disse que, com um pouquinho a mais de força, o tubarão teria rompido minha femoral e eu teria morrido no mar.

Como você ficou sabendo que havia sido um tubarão-branco?

Um biólogo veio ver as marcas da mordida na minha perna e na hora falou: 'Foi dos grandes'. Depois, ele atestou que havia sido um exemplar de cerca de 4 metros de comprimento. Ele disse que o fato de ter sido um tubarão-branco me salvou. Foi a minha sorte. O tubarão-branco dá sempre uma mordida investigativa e solta a presa. Se fosse um tubarão-tigre ou um cabeça-chata, provavelmente ele ficaria puxando até a minha perna ser arrancada. A morte seria certa.

O que você aprendeu dessa assustadora experiência?

Pode soar estranho, mas eu tenho orgulho de ter sido atacado por um tubarão-branco. Adoro mostrar as marcas, contar a história. A ocorrência de tubarão-branco é muito rara no Brasil. Eu me senti um privilegiado. Eu me achava invencível, que o mar era meu. O ataque me fez mudar.

Você voltou ao mar?

Dez meses depois, comecei encarando uma piscina. Foi estranho, eu tinha a sensação de que um tubarão-branco iria me atacar a qualquer momento. Uma vez, numa piscina no escuro, cheguei a ver barbatanas passando. Morria de medo. Era o que eu ainda chamo de tubarão-fantasma. Um tempo depois, voltei a velejar na mesma região em que havia sido atacado. Com a mesma prancha. Acho que isso foi um erro. Eu me coloquei na cena do ataque, com o mesmo material. Isso acabou se voltando contra mim. Acabei parando de velejar. Mas estou sentindo que vou voltar. Mas, obviamente, nada será como antes. O tubarão-fantasma vai me acompanhar a vida inteira.

João Pedro Portinari lançou a autobiografia 'A isca', sobre o seu terrível encontro com um tubarão-branco


Muita gente transforma tubarões em vilões, em monstros marinhos que precisam ser exterminados. O que você pensa a respeito dessa imagem? Acha que o famoso filme de Spielberg contribuiu para isso?

Spielberg ajudou a fomentar o terror por tubarões. Todos os filmes sobre tubarões que vieram em seguida foram influenciados por ele. O tubarão não é um devorador de homens, não é uma máquina assassina. Essa fúria absurda é coisa do cinema. Temos que respeitar o território deles. Ao contrário do que muita gente pensa, tubarões não têm prazer em matar humanos. Eles são fundamentais para garantir o equilíbrio ecológico dos mares. São importantes até para devorar carcaças de baleias que morrem em alto-mar e evitar que elas cheguem às praias e sirvam de banquete contaminado para populações mais pobres.

**ATENÇÃO (IMAGENS FORTES ABAIXO)**







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